Vontade de falar

Faltando menos de seis meses para completar 50 anos de idade, estou há pelo menos 30 anos direta ou indiretamente dentro de uma drogaria. Em 1990 iniciei na programação de computadores e nossa maior tarefa na época era atualizar os preços o mais rápido possível, pois a inflação diária era um grande problema enfrentado. Na mesma época conseguimos trazer o crediário (fiado) para frente dos monitores, além de imprimir extratos e recibos que antes eram guardados em arquivos e que talvez eram o maior patrimônio que existia dentro da drogaria.

Nossas farmácias eram em sua maioria no interior e de propriedade do farmacêutico do bairro, que com sua experiência e preparo atendia a todos e indicava remédios. A drogaria era um lugar de venda de medicamentos e ponto de encontro para colocar a conversa em dia. Como comerciante, os proprietários sempre fizeram muito bem o relacionamento com a comunidade, e, se observarmos atentamente, até elegeram vereadores e prefeitos, pois eram grandes formadores de opinião da cidade.

Como os produtos farmacêuticos eram tabelados (e são até hoje) pelo governo federal, não se cogitava a ideia de ficar olhando números, indicadores e fazer a gestão do negócio, era somente fechar o caixa, ter um capital de giro que muitas vezes estava em investimentos fora da farmácia e viver uma vida de classe média alta. Isso naquela época …

Atualmente ainda vejo muita resistência de clientes em mudar para o novo método que virou padrão e querem continuar com um modelo antigo de gerenciamento, porém isso é combustível para outro texto. Hoje quero dizer que muitas vezes o nosso silêncio, a falta de vontade de mudar, a ideia fixa de que as mudanças não são reais, a inércia dos comerciantes em dar o primeiro passo para o novo e o medo de recomeçar é mais forte, ficando assim parado, assistindo a mudança e aceitando isso como “uma solução”.

Vamos deixar de ser comerciantes e virar empresários

Sou muito realizado pelo que fiz nesses 30 anos mas sei que precisamos sempre nos reinventar. Espero que esse texto chegue e consiga convencer ao menos uma pessoa, assim já estarei feliz. Vamos deixar de ser comerciantes e virar empresários, o mercado está cheio de bons padrões, com retornos comprovados que devem sim serem seguidos. E falando em números relacionados a nossa central, vimos que nem 30% utilizam esses padrões corretamente a seu favor, e a não reação, a inércia, nos leva a crer que “a grama do vizinho é mais verde”, porém estamos deixando de cuidar da nossa própria grama.

Como farmácias independentes ainda representamos cerca de 35% das lojas do país, mas em faturamento talvez não tenhamos nem 15% do mercado atual. Esse texto não indica nenhum caminho, nem soluções milagrosas, apenas uma reflexão de que precisamos planejar, agir, estudar o mercado e não ficar parado.

Paulo Cesar Archanjo Máximo